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Fado

Viver no estrangeiro tem destas coisas: já me aconteceu várias vezes alguém perguntar se o fado é um estilo de música triste.

Como definição básica até nem está má, mas é impossível definir este estilo de música tradicional português em apenas uma palavra — “triste” — o fado não é apenas triste.

Para uma definição mais completa, viremos-nos para as palavras da Rainha do Fado:

Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

Amália Rodrigues in Tudo isto é Fado

Mas traduzir isto tudo dá uma trabalheira tremenda, por isso eu respondo, simplesmente, “sim”.

Olá, Rafael

Há muito tempo que não colocava uma posta neste blog.

Lamento — os meses de Dezembro e Janeiro foram stressantes e tive de desviar toda a minha inspiração literária para a produção de palha para um documento para a universidade.

As boas notícias é que agora estou com a produção em alta e, visto que o documento está entregue, posso reencaminha-la para aqui. Isso, e o facto de entretanto ter tido umas ideias porreiras para umas postas engraçadas (espero eu).

Já chega de desculpas e justificações. Estou a escrever para falar sobre o Rafael.

Sim, ele ainda está vivo. Muito vivo. Em grande forma! Ora vejam como ele cresceu desde o dia 8 de Julho:

comparacao_rafael

O meu Rafaelinho está a crescer. Se eu fosse um tipo mais emocional, teria duas lágrimas no canto do olho — como sou um homem duro, tenho apenas uma. E barba rija.

Mas que o Rafael estava a crescer já eu sabia. O que me surpreendeu foi um dia entrar no meu escritório e encontrar isto — apresento-vos o Teobaldo:

teobaldo

O Teobaldo parece ser um bambu.

Uh.

Como é que veio parar um rebento de bambu ao meu vaso? Rafael! O que é que tu não me estás a contar? Andas a dar escapadinhas à noite quando eu não estou cá para te envolveres com os bambus dos meus colegas? Ou será que foram os cactos? Nem sabia que isso era possível — um verdadeiro milagre da ciência!

Seja lá qual for a sua origem, o Teobaldo é mais que bem-vindo à família. Ok, agora tenho duas lágrimas no canto do olho. Raios.

A Família, essa que sofreu lá para finais de Dezembro um grave revés. Na última posta de Novembro tinha informado que os Joaquins originais estavam em sérias dificuldades, das quais nunca recuperaram. Apesar de no lugar deles terem aparecido dois outros, esses também sofreram o mesmo destino. Como agricultor estou mal, nem ervas daninhas consigo criar.

Felizmente, elas de uma maneira ou de outra vão passando o testemunho, como uma corrida de estafetas macabra. Aqui está o novo Joaquim, em excelente qualidade de imagem (a minha máquina fotográfica ficou sem bateria, esta foto foi o melhor que se pôde arranjar):

joaquim1

Finalmente, e para terminar uma nota positiva, regozijo-me em apresentar a evolução dos cactos. Aqui está o aspecto deles no dia 8 de Junho de 2008:

cactos

Ignorando o saudoso branquinho lá atrás -três lágrimas- é engraçado recordar a cabeça redonda do narigudo. Vejam a cabeça dele passados 8 meses:

cactos1

O tipo deve ter decidido fazer concorrência ao Rafael! O esforço do narigudo é louvável, mas repare-se no Teobaldo que vem lá atrás em grande velocidade — não sei se será possível fazer face ao novato cheio de energia juvenil.

Quem não está interessado em corridas é o outro cacto de aspecto standard — oito meses e continua do mesmo tamanho. Pelo menos sobrevive, o que já não é mau, considerando o historial do vaso em que ele se encontra.

Super-Poderes!

Está na hora de um novo meme para a malta. Este partiu de uma ideia minha que foi posteriormente desenvolvida em parceria com o Ricardo.

As duas perguntas são: Se pudesses ter um super-poder qualquer, qual seria? E que dez coisas farias com esse super-poder?

Um Super-Poder. Esse je-ne-sais-quois mítico que permite a um tipo (ou a uma tipa) fazer coisas que normalmente não seriam possíveis, como por exemplo, voar; não precisar de comer, beber ou dormir; perfeição física; distorção da realidade; e por aí em diante. Como bónus, um super-poder (excepção feita ao poder da distorção de realidade) transforma o corpo de qualquer tótó numa invejável máquina de fitness e testosterona, ou dota o corpo de uma qualquer rapariga insegura com uns enormes e firmes seios, pendurados num corpo de meio quilo que é invulnerável em 80% da sua área.

Posta a teoria de parte, vamos ao que interessa — tendo escolha aberta, qual super-poder escolheria?

O meu super-poder desejado deve ser típico de quem mora no estrangeiro, ou então de quem viaja muito (ou ambos): o Omnilinguismo — a capacidade de falar fluentemente todas as línguas do mundo. Aparentemente, ser capaz de pedir cerveja em várias línguas não chega para um tipo ser considerado omnilinguista, o que é pena, porque já sei pedir cerveja em maior parte dos países que produzem cerveja decente, para além de o conseguir fazer em inglês e espanhol.

De acordo com as regras do desafio, ficam aqui as dez coisas que faria com o ominilinguismo:

  1. Pedir cerveja nos locais mais remotos do mundo
  2. Andar de táxi no estrangeiro sem eles toparem que sou turista e me darem uma volta ainda maior (não gosto muito de taxistas)
  3. Insultar qualquer pessoa independentemente da sua nacionalidade, raça ou credo
  4. Ser insultado por qualquer pessoa, independentemente da sua nacionalidade, raça ou credo
  5. Impressionar as gajas — esse ser mítico
  6. Não me sentir inferiorizado por uma criança de 3 anos falar melhor alemão que eu
  7. Poder assistir às mais diversas estações de televisão internacionais (e não perceber nada na mesma porque me continuam a faltar as bases culturais)
  8. Descobrir se o omnilinguismo inclui o Klingon
  9. Perceber sobre o que raios os alemães estão sempre a falar
  10. Combater a crise financeira internacional

Para terminar, só falta respeitar as regras gerais dos memes e desafiar outros blogs a participar com uma entrada semelhante: a Rosa, a Grilinha, o Aires, o Viriato, a Mariana, e o Caxaria.

Segurança Google (beta)

Andava a ver a biblioteca aplicações para o novo sistema operativo da Google para telemóveis (Android) quando encontrei a iSafe.

isafe

Trata-se de uma aplicação que ajuda o utilizador a “manter-se seguro, onde quer que vá”. A descrição do programa parece que foi escrita por um tipo que tropeçou na rua e caiu de cara numa enorme poia da mais pura paranóia:

isafe-desc

A minha parte favorita está enterrada lá no meio (traduzido):

com alertas de voz em zonas de crime elevado

Acho que deve ser mais ou menos engraçado alguém entrar num bairro especialmente perigoso e ter o seu telemóvel caro a anunciar a altos berros “Cuidado! Você encontra-se numa zona cheia de canalhas e assaltantes!”.

WeightWatch 0.9.9

Acho que escrevi algures que a próxima versão do WeightWatch que publicasse ia ser a versão 1.0 final. Se não o escrevi, pelo menos sei que o pensei.

Ora, há uns dias descobri um bug tramado — aparentemente não dava para apagar números no campo de entrada do peso. Eu nunca tinha dado por isto porque na minha utilização diária do programa resumia-se a seleccionar o campo e carregar para cima ou (de preferência) para baixo para aumentar ou (de preferência) diminuir o valor.

Como o bug era tramado em termos de usabilidade, decidi publicar o software o mais rapidamente o possível, apesar de ainda andar desconfiado que o único utilizador deste programa sou eu.

Infelizmente, uma versão 1.0 é um obstáculo psicológico tramado. Uma versão com um número inteiro significa que o software está, para já, terminado, pelo menos no sentido em que toda a funcionalidade originalmente planeada está implementada e não tem problemas de maior. Ora, apesar de ter a funcionalidade planeada quase toda lá, e o software parecer estar bastante estável (pelo menos até encontrar o próximo bug tramado), estou com aquela sensação de que falta qualquer coisa.

Esse je ne sais quois impede-me de somar aquela centésima de versão ao programa que o tornaria um membro completo da sociedade. Lamento, WW, mas vais ter de esperar mais um pouco.

Finalmente convém dizer que esta versão, para além de corrigir o tal bug, também acrescenta algumas outras coisas que estavam em desenvolvimento desde a versão 0.9.5, nomeadamente, é possível carregar para baixo no gráfico para ver um gráfico de peso anual; a interface está ligeiramente mais atraente; e foram corrigidos vários pequenos problemas.

Como sempre, aqui está o link do costume.

O Rafael diz olá

Contra todas as expectativas, o Rafael sobreviveu já quase 5 meses em condições adversas que começam com ter de partilhar o vaso com dois cactos e os dois Joaquins, e terminam no facto de ele ter de depender de mim para que lhe dê essa deliciosa substância que é a água.

Os Joaquins, que algumas almas maldosas apelidaram de “ervas daninhas”, ou “umkräuter” (é a mesma coisa, dita por gente diferente) é que parecem não estar a gostar de partilhar o vaso com os outros e, apesar de todos os meus esforços, parecem estar a querer ir desta para melhor. Creio que o maior até já iniciou a viagem.

Felizmente, nem tudo são más notícias, pois na campa do Joaquim sénior brotaram recente e sorrateiramente dois novos Joaquins que parecem estar vivaços e cheios de força.

Já os cactos, apesar de terem sofrido um grave revés há algum tempo atrás, reorganizaram-se e também se encontram de excelente saúde, apesar de eu agora estar desconfiado que pelo menos um deles conseguiu adquirir acesso à internet e anda a receber os mesmos mails que eu.

Comer às escuras

Este fim de semana estive no Unsicht-bar, em Colónia.

Este restaurante tem uma temática muito particular: proporcionar a experiência que os cegos têm quando chega a hora de comer. Para atingir esse objectivo, a sala de jantar do restaurante encontra-se completamente escura, e é um sítio onde, de acordo com o nosso empregado, “qualquer tipo de luz é tabu”.

Isto significa desligar ou guardar tudo o que possa emitir luzes, como o telemóvel, relógios, etc. A passagem da recepção para a sala de jantar processa-se através de um sistema de duas portas em que apenas uma pode estar aberta a qualquer momento, e que garante que não há luz nenhuma acesa no momento em que se abre a porta que dá para o interior do restaurante.

Para dar uma ideia, eis uma foto que tirei durante o jantar:

Os empregados de mesa são na sua grande maioria invisuais. Eles guiam-nos através da escuridão até ao nosso lugar, dão-nos instruções sobre onde podemos encontrar os nossos talheres e como receber as bebidas e ensinam-nos a encontrar a comida no nosso prato. Comida essa que pode ser escolhida à entrada, mas apenas de uma forma muito geral — existem seis menus, de carne de aves, peixe, vegetariano, etc, mas não sabemos exactamente o que vem servido em cada um deles. Tentar descobrir o que estamos a comer constitui a segunda parte da experiência.

O que é que isto tudo significa para o restaurante? Muitos copos e pratos partidos, para começar. Nas duas ou três horas que estivemos lá dentro houve pelo menos quatro eventos em que a loiça teve um encontro violento com o chão. Num deles, foi o meu próprio copo de vinho, que felizmente já estava vazio (convém dizer que não foi culpa minha, mas do empregado que estava a arrumar a mesa ao meu lado). Mais a mais, aposto que poupam com a decoração, e a limpeza do chão é provavelmente opcional (mas espero que não).

E o que significa para nós? Tentar cortar um pedaço de peito de frango sem ver nada é um desafio único: o resultado fica frequentemente pequeno demais para render o trabalho de o ter cortado e procurado no prato, e quando fica grande demais, temos de decidir se volta para o prato para uma nova tentativa e se antes de voltar ainda leva uma trinca, ou se talvez devíamos ver se ainda cabe tudo na boca — depois de levar o garfo vazio à boca pela décima vez, um tipo começa a racionalizar que qualquer comida que venha agarrada ao garfo não é para desperdiçar.

No final de contas foi uma experiência única e espectacular. Estar num sítio público onde ninguém nos pode ver dá aso a muitas coisas. Alguns dos nossos vizinhos começaram a falar alto demais e a fazer comentários idiotas. Eu optei por fazer carantonhas horríveis e coisas que podem ser classificadas como “figuras de parvo”, desde que fossem sempre feitas de uma forma discreta e silenciosa. Ainda por cima, o meu método de comer foi tudo menos “limpo”, assim que descobri que era mais fácil encontrar a comida no prato com os dedos do que com o garfo.

No final foi-me sugerido que o restaurante talvez pudesse ter uma câmara daquelas que vêem no escuro, ao que eu digo: Quem me dera ter esse filme!